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Alunos de escolas públicas apontam ´incapacidade´ e ´falta de dinheiro´ como motivos para não cursar faculdade

08/08/2018 | Por: G1 São Carlos e Araraquara | 31

Foto: Felipe Lazzarotto/EPTV

Vencedora na categoria Internet Regional
Stefhanie Piovezan / G1 São Carlos e Araraquara (SP)
Publicada em: 21/07/2017

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Um dia, quando estava no ensino médio na Escola Estadual Professor Arlindo Bittencourt, em São Carlos (SP), Gabriela Dall’Agnol ouviu de um universitário que estatísticos "previam o futuro".

Hoje aluna do curso na Universidade de São Paulo (USP), ela sabe que não é bem assim. Por meio da análise de dados e tendências, a área permite fazer algumas previsões, mas também ajuda a explicar fenômenos do presente, e foi isso que Gabriela tentou ao lado da professora Cynthia de Oliveira Lage Ferreira, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), ao aplicar questionários para 744 estudantes de escolas públicas da cidade.

Juntas, elas descobriram que muitos jovens não buscam o ensino superior porque acham que não têm capacidade ou que é desnecessário. Também há quem acredite que a USP é paga e, por ser pobre, não seria possível cursá-la.

Falta de dinheiro
Foram ouvidos 423 alunos do 1º e 2º anos do ensino médio da Escola Estadual Doutor Álvaro Guião e 321 do 1º, 2º e 3º anos do ensino médio e técnico integrado ao médio da Etec Paulino Botelho, duas unidades de ensino localizadas na região central da cidade, próximas à universidade.

Na primeira, os questionário foram aplicados no 2º semestre de 2016 e 66% dos alunos ouvidos disseram que queriam fazer faculdade, 16% pretendiam trabalhar, 9% queriam curso técnico e 9% não sabiam. Na segunda, a aplicação ocorreu em maio deste ano e as proporções foram de respectivamente 82%, 6%, 1% e 11%.

Para Gabriela, muitos estudantes disseram que queriam fazer curso técnico justamente por acharem que é uma forma mais fácil e rápida de chegar ao mercado. "Querem ganhar salário, trabalhar, ajudar a família", disse a jovem, que fez bicos de fim de semana como recepcionista em buffet infantil e hoje conta com uma bolsa da universidade para realizar a pesquisa.

“Na minha escola, poucos sabiam o que era a USP. Alguns nem sabiam que existia USP em São Carlos e a maioria dos melhores alunos da minha sala não fez universidade pública. Se eles tivessem tentado, talvez tivessem conseguido, mas a principal preocupação era sair e trabalhar. E eu também tenho essa necessidade, a USP está pagando para eu pesquisar, fora as ajudas que a universidade dá, como os auxílios moradia e alimentação. Os alunos da escola pública não imaginam os auxílios que a USP dá, nem têm ideia”, relatou Gabriela.

Para tirar dúvidas sobre esse assunto, o ICMC produziu o vídeo "Você sabe quanto custa estudar na USP?". Veja aqui.

Gosto por matemática
O estudo também mostrou que cerca de 50% dos alunos da escola Álvaro Guião e 66% dos da Etec diziam gostar de matemática, mas poucos conheciam os cursos de matemática aplicada e estatística, os mais novos da USP na cidade, com menor relação candidato/vaga.

“Pesquisamos se eles gostavam de matemática, e a maioria disse que ‘sim’. Achamos que esse índice ia ser muito menor porque todo jovem fala que odeia matemática, então isso nos surpreendeu. A gente tem 50% de alunos que gostam de matemática e quase todos querem fazer faculdade, então por que eles não escolhem cursos da USP, que está do lado das escolas deles?", questionou a jovem.

Após os questionários, foram promovidas conversas com os alunos sobre as duas carreiras e alguns se interessaram inclusive por iniciações científicas voltadas para o ensino médio.

Aprovações
De acordo com o diretor da Etec, Aparecido Sedi Moriwaki, em 2016, cerca de 70 dos 160 alunos do 3º ano foram aprovados em universidades públicas e privadas e, para que esse número cresça, a equipe tem insistido na necessidade de capacitação.

"Uma das nossas brigas é que continuem estudando", disse. Rita também afirmou que trabalha nesse sentido. "Tentamos mostrar para eles os dois lados, que a parte profissional depende do conhecimento, aproximar essas duas áreas".

Segundo ela, no ano passado, cerca de 25 dos 200 alunos foram aprovados no vestibular e isso serviu de estímulo para quem agora está no 3º ano, trouxe algo como "se eles puderam, eu posso, agora é a minha vez". "É um sonho desejado e, quando eles passam, alcançado", disse.

"É gratificante ver alunos progredirem", resumiu Moriwaki, que foi professor de física de Gabriela no ensino fundamental. "É a maior satisfação que um educador pode ter".