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Falhas no ensino médio dificultam a vida de jovens em universidades do país

08/08/2017 | Por: Correio Braziliense | 95

Ana Rayssa Yago Gomes, 24 anos, atualmente já cursa relações internacionais

Publicada em: 13/05/2017

Vencedora na categoria Internet Regional
Tainan Soares Pimentel / Correio Braziliense / Distrito Federal

 

Programas sociais, como Fies e ProUni, além das políticas de ação afirmativa, como sistema de cotas para estudantes negros e da rede pública, facilitaram o acesso de estudantes historicamente excluídos ao ensino superior. No entanto, muitos desses alunos estudaram a maior a parte da vida em escolas públicas, e após dezenas de greves, falta de professores e condições ideais ao aprendizado, chegam às universidades com algum tipo de dificuldade. Alguns optam por trancar disciplinas mais complexas e chegam até a desistir do curso. Outros, no entanto, superam as dificuldades e até se destacam dos demais. Para resolver o problema, especialistas dizem que é preciso investir mais e melhor na educação e rever o atual modelo de ensino. Como esse tipo de mudança mais radical demanda tempo, recomendam que, para uma solução a curto prazo, as faculdades adotem formas de recuperar os estudantes, antes que eles cheguem ao mercado de trabalho.

Lucas Tavares, 20 anos, ilustra bem essa parcela de universitários. Assim que terminou o ensino médio, concluído em uma escola da rede pública, o estudante passou no vestibular para o curso de ciências da computação, no Instituto Federal de Brasília (IFB). Já no primeiro semestre, começaram as dificuldades, devido a disciplinas de cálculos. "Os professores tiveram de abrir uma turma de matemática básica para não reprovar todo mundo em cálculo. Não tínhamos base adequada", explica.

Apesar do apoio da instituição, Lucas conta que, assim como outros colegas, não conseguiu seguir adiante e desistiu do curso. "Muita matemática! Eu não soube lidar. Não sabia o mínimo para levar para frente", relata o estudante, que fez um novo vestibular e foi aprovado pelo sistema de cotas para estudantes da rede pública para o curso de Ciências Contábeis, da Universidade de Brasília (UnB), onde, atualmente, cursa o 4° período. “A matemática de contábeis é mais financeira. Mais tranquila”, acrescenta.

A história de Herberth de Paula, 18 anos, é parecida. O estudante concluiu os estudos em 2015, no Centro de Ensino Médio 01 do Gama (CG). No ano seguinte, começou o curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de Brasília (UnB). Assim como Lucas, as dificuldades surgiram no primeiro semestre, com disciplinas de exatas, área em que ele diz ter aprendido mal no ensino médio. "Eu nunca fui bem em exatas, não tinha afinidade. Na época, também não tinha noção de que eu iria precisar disso no futuro", acrescenta. Em um primeiro momento, ele correu atrás do prejuízo. "Tive que revisar todo o conteúdo de matemática. Aprender, na verdade, porque eu não havia aprendido na época", explica. No entanto, ao perceber que deixava de lado outras disciplinas do curso, decidiu trancar a matéria de cálculos. "A maioria da sala trancou também", acrescenta.

As exatas também são uma pedra no sapato de Jefferson Barbosa, 26 anos. Hoje, ele é estudante de gastronomia em uma faculdade particular do DF. O aluno, que está no 2° período, foi selecionado para uma bolsa integral pelo Programa Universidade para Todos (ProUni). Começou a ter dificuldade semestre passado, com cálculos de ingredientes usados em pratos feitos pelos alunos. "Matemática básica, regra de três, cálculo para divisão de ingredientes. Isso não entra na minha cabeça. Era como se o professor tivesse falando para parede", explica.

Para vencer as dificuldades, o aluno tem buscado ajuda em colegas. "Estou procurando [ajuda] para colegas e minhas amigas. Agora, tá começando a entrar mais na minha cabeça", conta.

Lucas Almeida, 21 anos, estuda Publicidade e Propaganda em uma faculdade privada da cidade. Conta que estudou a vida inteira em colégios particulares como bolsista, se formando em 2013. Diferentemente dos demais, o futuro publicitário diz que até hoje não sentiu dificuldades na graduação em função do ensino médio que cursou, segundo ele, devido às disciplinas das duas etapas serem distantes. No entanto, admite que se tivesse entrado em outro curso, como física ou química, também encontraria obstáculos. “Com certeza”, reconhece.

Visão dos alunos

O que Lucas, Herbert e Jefferson têm em comum, além das dificuldades enfrentadas na vida acadêmica, é o fato de terem estudado a vida inteira na rede pública. O Correio pediu aos três que refletissem sobre o que os levou a aprender mal, ou a não aprender, conteúdos cobrados agora no ensino superior. Herbert admite que tinha uma visão imediatista na época que era secundarista. “Pensava 'não vou usar baskhara para ir na padaria'", conta. Lucas vai além e problematiza o modelo de ensino. Ele afirma que sempre foi um dos melhores da sua turma, mas que a cultura da “decoreba” faz com que o aluno esqueça o conteúdo depois da prova. "A cultura de tirar o mínimo para passar e não ligar para o resto, acaba desmotivando todo mundo, e as coisas são levadas nas coxas. O foco era passar no vestibular. Depois disso, não importava", explica.

O estudante diz, ainda, que o aluno da rede pública passa de ano sem compreender o conteúdo. "Vai acumulando coisas que não aprendemos direito, mas vamos passando. Ficam várias lacunas e uma hora essa bola estoura. Senti isso na faculdade", conclui.

Já Jefferson atribui as dificuldades a traumas que teve com um professor na 6° série (atuamente o 7º ano). "Tive um professor horrível de matemática no ensino fundamental. Não entendia nada. Ele falava as coisas e queria que a gente entendesse na mesma hora, e nem sempre a gente entendia. E ele não repetia depois", detalha.

O aluno diz que reprovou naquele ano, o que forçou a mãe a pagar aulas particulares no ano seguinte para que ele não reprovasse de novo. "Consegui passar na segunda vez porque minha mãe pagou aula de reforço para mim. Mas peguei raiva de matemática a partir daí", finaliza.

Faculdade precisa recuperar

Mestre e Doutor em Educação pela Universidade de Brasília (UnB), Célio da Cunha diz que são vários os fatores que prejudicam o aprendizado dos alunos da rede pública de ensino. Em primeiro lugar, segundo ele, vem a má qualidade do ensino. "A alfabetização inicial no Brasil é precária e o deficit, cumulativo. A alfabetização mal feita compromete o aluno nas séries seguintes, que leva isso para o ensino médio e, depois, ao superior", explica.

No entanto, Célio lembra que, assim como há escolas públicas ruins, há particulares também. "Tem escola particular boa e escola particular ruim, e as duas mandam alunos para as universidades. A escola pública manda mais, porque elas estão em maioria no país. Mas há escolas públicas de boa qualidade também", conta.

Outro fator, assim como apontou Lucas, é o atual modelo de ensino, que valoriza a chamada decoreba em detrimento da compreensão. O especialista diz que as escolas precisam, definitivamente, repensar as formas de fazer o aluno enxergar a aplicação prática do que aprendem. "Temos hoje a questão da crise hídrica no DF. A escola pode, por exemplo, criar um problema ligado a isso, integrando várias disciplinas, e dar aos alunos para solucionar", exemplifica. "Toda pedagogia moderna se volta para isso. Colocar mais questões de raciocínio e de processo mental", acrescenta.

Enquanto o problema não é resolvido, o mestre em educação diz que as faculdades precisam criar estratégias para recuperar o aluno antes que ele chegue ao mercado. "Ter um professor-orientador que esteja à disposição do estudante fora da aula, e deslocar alunos com melhor desempenho para serem monitores, são algumas estratégias", diz "Se medidas não forem adotadas, o aluno acumula deficit, prejudica sua carreira e o país", alerta.

Bolsistas se destacam

Apesar de chegarem à faculdade com algum tipo de dificuldade, universitários que possuem bolsas tendem a se recuperar e até se destacar dos não bolsistas. É isso que mostrou o estudo de uma pesquisadora da Universidade Católica de Brasília (UCB), que avaliou o desempenho de bolsistas do Programa Universidade para Todos (ProUni) de todo Brasil no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) de 2007, 2008 e 2009. Em sua dissertação de mestrado, Ana Paula Gaudio descobriu que na maioria das áreas de conhecimento, como administração e direito, os bolsistas têm inicialmente algum tipo de dificuldade que é superada em seguida. Apenas em cursos como medicina e engenharia, os bolsistas apresentaram rendimento inferior aos não bolsistas. No entanto, de acordo com a pesquisadora, o estudo é conclusivo. "Ficou claro que, quando o estudante tem acesso ao nível superior, ele pode, sim, ter desempenho igual ou até melhor aos demais alunos. O ponto chave é ter o acesso", pontuou a pesquisadora.

Yago Gomes, 24 anos, estudante de relações internacionais em uma faculdade particular do DF, é um exemplo do que afirma a pesquisadora. Morador da expansão do Setor 'O', em Ceilândia, o jovem faz parte do programa de Financiamento Estudantil do Governo Federal (Fies), que assim como o ProUni, é uma forma de acesso de estudantes que não têm condições de pagar uma mensalidade integral em uma faculdade privada.

Assim como os alunos do levantamento, Yago estudou em escola pública, teve dificuldades em disciplinas do curso, mas conseguiu superar as barreiras, aproveitando a oportunidade que teve. “Economia, as [matérias] voltadas para o campo da filosofia e do direito, quase todas”, descreve as disciplinas que teve dificuldade. “E acabaram sendo as que mais me apaixonei, digamos assim, porque não sabia nada ou pouco”, finaliza o jovem, que hoje estagia no Ministério da Relações Exteriores.